Alexandre Paredes
RESUMO:
O
propósito deste artigo é buscar responder se vivemos uma crise ética em nosso
tempo, dada a existência de discursos contemporâneos nesse sentido. Apoiando-se
em uma compreensão conceitual de ética, constata-se uma carência de
fundamentação teórica para sustentar afirmações dessa natureza, sendo possível
identificar uma ideologia subjacente aos discursos que propagam um “retorno à
ética”. À luz do pensamento de Zygmunt Bauman, o artigo procura, também, investigar
como, na Modernidade Líquida ou Pós-Modernidade, ocorreu uma perda de
referenciais sólidos e o consequente relativismo moral, bem como compreender
esses fenômenos em face do contexto ético da atualidade. Por fim, faz-se uma
reflexão a respeito das implicações do modo de vida capitalista sobre o ser humano
contemporâneo na sua condição de agente ético.
PALAVRAS-CHAVE:
Ética;
Moral; Crise; Retorno à Ética como Ideologia; Modernidade Líquida;
Pós-Modernidade; Capitalismo; Alienação, Fundamentalismo, Consumismo.
ABSTRACT:
The
purpose of this article is to answer if we live an ethical crisis in our time,
given the existence of contemporary discourses accordingly. Relying on a
conceptual understanding of ethics, there appears a lack of theoretical basis to
support affirmations of this nature, it is possible to identify an underlying
ideology to speeches that propagate a "return to ethics". In light of
the thought of Zygmunt Bauman, the article also seeks to investigate how, in
the Liquid Modernity or Post-Modernity, there was a loss of solid references
and the consequent moral relativism and understand these phenomena in the face
of today's ethical context. Finally, it is a reflection on the implications of
the capitalist way of life of the contemporary human being in its ethical agent
condition.
KEY WORDS:
Ethic;
Moral; Crisis; Return to Ethics and Ideology; Liquid Modernity; Post-Modernity;
Capitalism; Alienation, Fundamentalism, Consumerism.
INTRODUÇÃO
A sociedade
contemporânea depara-se, a cada dia, com fatos que levam à perplexidade
qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade. A violência urbana, a
corrupção generalizada, os genocídios, a crueldade com seres humanos ou
animais, o terrorismo, as armas de extermínio, o desprezo pela vida humana,
entre outros, são apenas alguns aspectos que levam a afirmações do tipo que
“vivemos uma crise ética” ou a um discurso sobre o “retorno à ética”. Em tempos de Pós-Modernidade ou de Modernidade Líquida,
constata-se o enfraquecimento dos valores tradicionais, perda de referenciais
teóricos sólidos e um grande relativismo moral, que contribuem para essa
percepção.
Em contrapartida,
um breve olhar sobre o passado leva-nos a crer que as crises são de todos os
tempos, assim como os problemas éticos ou morais. Sobre isto podemos citar a
escravização de seres humanos, as torturas ou condenações de hereges à fogueira
pela Igreja, o massacre de civilizações indígenas, apenas para mencionar alguns
exemplos.
Diante dessas
questões, pretende-se neste artigo fazer uma investigação, à luz das obras
“Conceito de Ética na Contemporaneidade Segundo Bauman”, de Paulo Fernando da
Silva, “Ética e Violência”, de Marilena Chauí, e “Ética e Vergonha na Cara”, de
Mário Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho, se, de fato, vivemos uma crise
ética na contemporaneidade ou não; identificar qual ou quais os fenômenos que
configuram o contexto ético de nosso tempo; e identificar alguns fatores
causais desse contexto.
1
COTEXTUALIZANDO
ÉTICA, MORAL E CRISE
Em nosso
meio, é comum haver confusões ou uso inadequado dos termos “ética” e “moral”.
Tanto o primeiro quanto o segundo ocupam-se do certo e do errado, do justo e do
injusto, do bem e do mal, do modo de agir de uma sociedade. Mas qual a
diferença entre os dois termos?
A palavra “moral” deriva do latim mores,
que significa “costume”. Aquilo que se consolidou ou se cristalizou como sendo
verdadeiro do ponto de vista da ação. A moral é fruto do padrão cultural
vigente e incorpora as regras eleitas como necessárias ao convívio entre os
membros dessa sociedade. Regras estas determinadas pela própria sociedade.
(...)
A palavra “ética” vem do grego ethos.
Em sua etimologia, ethos significa literalmente morada,
habitat, refúgio. O lugar onde as pessoas habitam. Mas para os filósofos, a
palavra se refere a “caráter”, “índole”, “natureza” (CUNHA, 2015).
(...) ethos
é o caráter ou temperamento individual que deve ser educado para os valores da
sociedade e ta éthiké é uma parte da
filosofia que se dedica às coisas referentes ao caráter e à conduta dos indivíduos
e por isso volta-se para a análise dos próprios valores propostos por uma
sociedade e para a compreensão das condutas humanas individuais e coletivas,
indagando sobre seu sentido, sua origem, seus fundamentos e finalidades.
(CHUAÍ, 2006).
A ética (...) é a parte da filosofia que
estuda a moral, isto é, que reflete e questiona sobre as regras morais. A
reflexão ética pode inclusive contestar as regras morais vigentes,
entendendo-as, por exemplo, como ultrapassadas ou simplesmente erradas do ponto
de vista pessoal (CUNHA, 2015).
Enquanto a moral
é fruto das convenções sociais, daquilo que se ensina de geração para geração,
resultado dos costumes, das religiões, daquilo que o senso comum de determinada
sociedade entende como certo e errado, a ética é uma reflexão sobre a moral.
Assim, a moral
varia de acordo com o lugar e o momento histórico de cada sociedade. Num
determinado local ou num determinado país, pode ser considerado imoral, por
exemplo, um beijo entre um casal, uma mulher mostrar seus cabelos em público,
ou as pessoas andarem sem roupas, enquanto em outra sociedade – como a indígena
– a nudez, por exemplo, não tem nada de imoral.
O mesmo se pode
dizer em relação ao momento histórico. Aquilo que, num mesmo país, em dado
momento, era considerado errado, imoral, em outro momento histórico, é tido
como natural. Sobre esse aspecto, cabe aqui mencionar a revolução dos costumes
ocorrida nas décadas de 1960 e 1970, que modificou o panorama daquilo que se
considera imoralidade. Outro exemplo dessa mudança de percepção sobre a
moralidade dependendo do momento histórico é a escravização de seres humanos,
que era vista como algo natural pelos antigos, reflexo da dominação exercida
pelos povos mais hábeis na arte da guerra, que, sobrepujando os vencidos, escravizavam-nos,
prática que é abominada pelas sociedades dos tempos atuais.
É importante
fazer distinção, também, entre o que é ético, moral e legal. Uma ação legal nem
sempre é ética, pois, embora amparado por leis para realizar determinadas
ações, o agente ético sempre pode fazer escolha de valores que divergem daquilo
que as normas positivadas em códigos e leis determinam. Ou seja, podem existir
leis consideradas injustas do ponto de vista ético.
Há, ainda, o que
pode ser considerado imoral, porém legal. Um exemplo dessa situação é a questão
da prostituição, que, embora considerada imoral por uma parcela da sociedade, encontra
amparo nas leis vigentes, uma vez que a profissão prostituta é reconhecida pela
legislação brasileira.
Da mesma forma,
nem sempre o que é considerado imoral é antiético, uma vez que determinadas
condutas consideradas fora dos padrões morais de uma sociedade podem ser
consideradas moralmente corretas ao se fazer uma análise à luz da razão. Um
exemplo deste último caso seria a situação de uma pessoa que rouba um remédio
para salvar uma vida: embora roubar seja um ato imoral, o indivíduo ético faz
uma escolha – a de contrariar uma regra social – para atingir um bem que ele
considere ser maior.
A ética, como
reflexão sobre a moral, como uma análise racional sobre a moral, pressupõe que
haja escolha moral. Se a conduta de cada pessoa estivesse como algo posto, um
caminho único definido a ser seguido, ou se as pessoas estivessem coagidas a
agir somente de um determinado modo, não haveria o que se falar sobre ética,
uma vez que esta somente se exercita pela constante faculdade de se realizar
escolhas a partir de valores.
Desse modo, a utilização da
terminologia “código de ética”, tão comum na contemporaneidade, em ambientes
corporativos e em regras de conduta de classes profissionais, não faz sentido
do ponto de vista teórico. O que, geralmente, se pretende, de fato, com tais
códigos, é o estabelecimento “de regras de moral que buscam criar uma cultura
ética” (CUNHA, 2015).
De vez em quando surge no mundo
empresarial algo que é estranho à filosofia; trata-se do “código de ética”
(...). Embora o mercado já tenha consagrado essa expressão, do ponto de vista
teórico ela não faz sentido. É possível ter um “código de conduta”, é possível
um “código moral” – que é aquele que estabelece sim ou não, pode ou não pode –,
mas nunca um “código de ética” (CORTELLA, 2016, p. 42).
Porém, apesar da compreensão da ética como
reflexão, disto não se pode deduzir que ela seja meramente teórica. A partir do
momento em que o sujeito reflete sobre a moral, tem condições de fazer melhores
escolhas, fundamentadas em valores, e estes baseados em referências. É nesse
ponto em que a ética se converte em educação para uma vida melhor do indivíduo
em relação à sociedade na qual está inserido. O agir ético, então, seria o agir
com consciência das escolhas que se faz, e não se baseando em regras
pré-estabelecidas, embora tais regras favoreçam uma cultura ética.
Assim, uma ação só será ética se for livre
e responsável e só será virtuosa se for realizada em conformidade com o bom e o
justo. A ação ética só é virtuosa se for livre e só será livre se for autônoma,
isto, se resultar de uma decisão interior ao próprio agente e não vier da
obediência a uma ordem, a um comando ou a uma pressão externos. Como a palavra
autonomia indica, é autônomo aquele que é capaz de dar a si mesmo as regras e
normas de sua ação (CHAUÍ, 1998).
Essa questão trazida por Marilena
Chauí permite perceber a existência de um conflito entre a autonomia do agente
ético e a heteronomia dos valores morais de sua sociedade, que o impelem a agir
conforme aquilo que não foi definido ou escolhido por ele mesmo. Tal conflito,
segundo a autora, somente se resolve quando o agente reconhece os valores
morais da sua sociedade como se fossem produto de suas próprias escolhas, ou
seja, quando há um consentimento tácito das regras que o regem.
Enfim, a ação só é ética se realizar a
natureza racional, livre e responsável do agente e se o agente respeitar a
racionalidade, liberdade e responsabilidade dos outros agentes, de sorte que a
subjetividade ética é uma intersubjetividade (CHAUÍ, 1998).
É importante esclarecer o que se
quer dizer quando se menciona o termo referências. Quando se faz uma escolha
entre valores, faz-se baseado em determinados referenciais. Por exemplo, quando
se diz de uma pessoa que ela é muito bonita ou que alguém é um grande jogador
de futebol, ou que determinada pessoa é inteligente, tais afirmações são ditas
com base num referencial de beleza, numa referência do que seja um bom jogador
de futebol ou de uma pessoa inteligente. O mesmo ocorre quando se avalia uma
pessoa que realiza uma prova: sua nota é aplicada com base num gabarito, que é
a referência que se tem para a aplicação da nota (CORTELLA, 2016).
Então, quando se fala em “crise de
valores”, talvez se devesse precisar “crise de certos valores”, porque não se
podem escolher valores se não tem referência. (...) Na hora de reduzirmos isso
a princípios, o que acontece? Encontramos um complicador, porque os princípios
podem apontar soluções contraditórias da existência. No exército, a regra da
disciplina obriga o soldado a se levantar às cinco da manhã. Mas no asilo, a
regra do repouso faz com que se deixe o idoso dormir. Ora, a disciplina é
princípio? É, sem disciplina a vida é ruim. E quanto ao repouso, é princípio?
É, porque sem repouso a vida também é ruim. (...) Não basta mapear a
complexidade, é preciso escolher, e quanto maior for a lucidez para mapear a
complexidade, mais complicada é a escolha (CORTELLA, 2016, p. 48).
Com isso, se quer dizer que a simples
escolha de determinados princípios não dão conta da complexidade do que é a
vida, e retomando o pensamento de Mário Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho (2016, p. 45), “não há vida sem escolha, e não há
escolha sem valor”. Os seres humanos elegem alguns valores que são importantes
para que se tenha uma vida harmônica em sociedade, mas cada momento, cada
situação, exige uma reflexão sobre qual valor escolher e com base em quais
referenciais.
Por exemplo, a confiança é um valor
importante para uma vida em sociedade. Não se podem realizar negócios,
empreendimentos, não se pode realizar um casamento, ter um relacionamento, não
se pode aplicar dinheiro em determinados investimentos, nem realizar contratos
sem que haja confiança. Mas a desconfiança também é um valor importante, pois a
confiança plena e irrestrita nas pessoas também nos levaria a resultados ruins,
como, por exemplo, ser atropelado numa faixa de pedestres por confiar demais
que os motoristas respeitarão as leis. O mesmo se poderia dizer de valores como
sigilo e transparência. Ambos são valores importantes em que, a depender de
cada situação, deve-se escolher entre um ou outro (BARROS FILHO, 2016).
O que se pode concluir desse pensamento é
que a ética é sempre um exercício permanente de avaliar valores com base em
referências e fazer escolhas racionais fundamentadas nessa avaliação em cada
situação da vida. Isso vale tanto do ponto de vista individual quanto coletivo,
visto que, coletivamente, uma civilização enfrenta, a cada etapa de sua
história, novos dilemas morais, que exigem novas reflexões éticas. Assim
restaria prejudicada uma análise quanto a uma eventual crise ética, visto que
ela não se pauta em referenciais fixos, imutáveis, mas é um exercício
permanente de reflexão e escolha moral.
2
O DISCURSO DO
“RETORNO À ÉTICA”
Diante de todo o aspecto conceitual,
teórico, que foi abordado na seção anterior, verifica-se que a ética não pode
ser considerada algo que se tem em algum momento e que, posteriormente se
perde. Nas palavras de Marilena Chauí (1998):
Fala-se em crise dos valores e na
necessidade de um retorno à ética, com se esta estivesse sempre pronta e
disponível em algum lugar e como se nós a perdêssemos periodicamente, devendo,
periodicamente, reencontrá-la. É como se a ética fosse uma coisa que se ganha,
se guarda, se perde e se acha e não a ação intersubjetiva consciente e livre
que se faz à medida que agimos e que existe somente por nossas ações e nelas.
Sobre esse aspecto, cabe uma reflexão. Se,
de fato, houvesse uma necessidade de retorno à ética, a que ética esse retorno
poderia estar se referindo? A ética do tempo de Sócrates, aquele que mudou o
foco da Filosofia da Cosmologia para a Ética, mas que foi condenado a beber
cicuta pelos seus concidadãos? A ética dos tempos medievais, em que, embora o
Cristianismo fosse a religião oficial e a moral cristã pregasse o amor ao
próximo, a Igreja condenava hereges à tortura e à fogueira? Ou a ética dos
tempos modernos, nos quais, embora sob a égide dos ideais do Esclarecimento, da racionalidade e do
progresso, encontramos as mais variadas expressões de abuso do ser humano sobre
outro, como podemos citar o massacre de civilizações indígenas, o Holocausto e
a bomba atômica?
Quando se fala em “crise ética” que a
contemporaneidade poderia estar enfrentando, observa-se que, se há tal crise,
ela não poderia, então, ter-se iniciado nesta década, neste século, pois, ao se
observarem alguns escritos antigos, encontram-se registros de desapontamento
dos indivíduos em relação à situação “ética” (ou, na verdade, moral) de seu
tempo.
Para efeito ilustrativo, vale citar aqui as
palavras de Rui Barbosa – um personagem proeminente da política brasileira do
início do século XX –, que tão bem sugestivamente fazem o prefácio do livro
“Ética e Vergonha na Cara”, de Mário Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho,
uma vez que parecem retratar a situação atual do nosso país:
De tanto ver triunfar as nulidades, de
tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver
agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da
virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto (BARBOSA APUD
CORTELLA e BARROS FILHO, Prefácio, 2016).
Nos recortes a seguir, é possível
identificar certa semelhança com situações que a sociedade da atualidade
enfrenta, embora se trate de escritos bastante antigos, de épocas bem
anteriores à Modernidade:
Nossa juventude adora o luxo, é
mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos.
Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma
pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus. (Frase
atribuída a SÓCRATES, 470 – 399 a.c. – GIBSON APUD FRÓES, 2013).
Não tenho mais nenhuma esperança no futuro
do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa
juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível, (Frase
atribuída a HESÍODO – 720 a.c. – GIBSON APUD FRÓES, 2013).
Retomando o pensamento de Marilena Chauí, a
autora apresenta alguns aspectos conjunturais que seriam os fatos que motivam o
discurso do "retorno à ética" como a palavra de ordem, como panacéia
geral na atualidade. São eles:
- o refluxo dos movimentos e das políticas
de emancipação do gênero humano criou um vazio que a ideologia neoliberal
sente-se à vontade para preencher ao seu bel-prazer porque não encontra
opositores;
- a forma atual da acumulação ampliada do
capital, chamada de acumulação flexível, produz a dispersão, a fragmentação de
grupos e classes sociais, destruindo seus antigos referenciais de identidade e
de ação e tornando altamente complicada a criação de novos referenciais, de tal
maneira que a fragmentação e a dispersão tendem a aparecer como naturais e a se
oferecer como valores positivos;
- a naturalização e valorização positiva
da fragmentação e dispersão socioeconômica aparecem no estímulo neoliberal ao
individualismo competitivo e ao sucesso a qualquer preço, de um lado, e, de
outro, como a salvação contra o egoísmo pela produção do sentimento comunitário
por todas as formas religiosas de fundamentalismo. O elogio do individualismo
agressivo e a busca do fechamento religioso destroem o campo da ação
intersubjetiva e sociopolítica como campos de abertura e realização coletiva do
possível no tempo, isto é, a criação histórica;
- as mudanças tecnológicas, a partir do
momento em que a técnica deixa de ser ciência aplicada para tornar-se ciência
cristalizada em objetos de intervenção humana sobre a natureza e a sociedade,
transformam a tecnologia não só em forma de poder, mas sobretudo em força
produtiva e parte integrante do capital, e essa transformação, feita
exclusivamente sob a lógica do mercado, é sua transformação em lógica do poder
como decisão sobre a vida e a morte em escala planetária;
- a sociedade da mídia e do consumo de
bens efêmeros, perecíveis e descartáveis engendra uma subjetividade de tipo
novo, o sujeito narcisista que cultua sua própria imagem como única realidade
que lhe é acessível e que, exatamente por ser narcísica, exige aquilo que a
mídia e o consumo lhe prometem sem cessar, isto é, satisfação imediata dos
desejos, a promessa ilimitada de juventude, saúde, beleza, sucesso e felicidade
que lhe virão por meio dos fetichizados, promessas que, no entanto, não podem se
cumprir e geram frustração e niilismo (CHAUÍ, 1998).
Diante desse quadro que compõe a realidade
da contemporaneidade, o discurso sobre o “retorno à ética” teria como pano de
fundo uma ideologia, pois como seria pensada essa ética à qual se pretenderia
retornar?
Em primeiro lugar, como reforma dos
costumes (portanto, como moralidade) e como restauração de valores e não como
análise das condições presentes de uma ação ética.
Em segundo lugar, como dispersão de éticas
(ética política, ética familiar, ética escolar, ética profissional, ética da
empresa, ética médica, ética universitária) desprovida de qualquer
universalidade porque espelha sem análise e sem crítica a dispersão e
fragmentação socioeconômica. Mais do que ideologia, essa pluralidade de éticas
exprime a forma contemporânea da alienação, isto é, de uma sociedade totalmente
fragmentada e dispersa que não consegue estabelecer para si mesma sequer a
imagem da unidade que daria sentido à sua própria dispersão. Fragmentada em
pequenas éticas locais, a que se reduz a ética? Passa a ser entendida como
competência específica de especialistas (as comissões de ética) que detêm o
sentido das regras, normas, valores e fins locais e julgam as ações dos demais
segundo esses pequenos padrões localizados, os quais, freqüentemente, estão em
contradição com outras localidades, pois a sociedade capitalista é tecida pelas
contradições internas.
Em terceiro lugar, é entendida como defesa
humanitária dos direitos humanos contra a violência, isto é, tanto como
comentário indignado contra a política, a ciência, a técnica, a mídia, a
polícia e o exército, quanto como atendimento médico-alimentar e militar dos
deserdados da terra. É o momento no qual as ONGs deixam de ser vistas e
pensadas como partes de movimentos sociais mais amplos ligados à cidadania,
para serem reduzidas à condição assistencial que a imagem das vítimas impõe à
consciência culpada dos privilegiados (CHAUÍ, 1998).
Essa ideologização da ética acarreta como
resultado a perpetuação do exercício da violência, que, por sua vez, fornece
mais elementos para que se amplie o discurso do “retorno à ética”. Isto porque
o sujeito ético está dividido em dois: de um lado o sujeito ético como vítima,
e de outro, o sujeito ético piedoso e compassivo, que age para afastar os sofrimentos
da “vítima” (CHAUÍ, 1998).
Assim, a vitimização promove a concentração
da ação nas mãos dos “não-sofredores compassivos”, que devem trazer a justiça
de fora para os injustiçados. Estes últimos perderam, portanto, a condição de
sujeitos éticos para serem simplesmente merecedores de nossa compaixão. E para
que os não-sofredores possam ser éticos, é necessário que ocorram duas
violências: primeiro, a existência de vítimas, depois, o tratamento do outro
como vítima sofredora passiva e inerte (CHAUÍ, 1998).
A ética como ideologia inverte a lógica de
se pensar na ideia do bem, do justo e do feliz como determinantes para a
autoconstrução do sujeito ético; de modo contrário, ela coloca a imagem do mal
como determinante da ideia do bem.
O bem se torna a mera ausência de mal ou
privação de mal, não é algo afirmativo e positivo, mas puramente reativo. Eis
porque a ética como ideologia salienta e sublinha o sofrimento individual e
coletivo, a corrupção política e policial, pois com tais imagens ela oferece fatos
visíveis que sustentam seu discurso e consegue obter o consenso da opinião:
somos todos contra o Mal, porém, não nos perguntem sobre o Bem por que este
divide a opinião, e a "modernidade", como se sabe, é o consenso
(CHAUÍ, 1998).
A imagem do mal e a imagem da vítima têm
poder de mídia, que nos levam à indignação e compaixão, o que acalma a
consciência culpada dos “não sofredores compassivos”. Enfim, a autora ressalta
que “precisamos das imagens da violência para nos considerarmos sujeitos
éticos” (CHAUÍ, 1998).
Por fim, para finalizar este tópico,
Marilena Chauí assinala os efeitos perversos que são acarretados pela ética
como ideologia:
A ética como ideologia significa que, em
lugar da ação reunir os seres humanos em torno de idéias e práticas positivas de
liberdade e felicidade, ela os reúne pelo consenso sobre o mal. Com isso, a
ética como ideologia é duplamente perversa: por um lado, ela procura fixar-se
numa imagem do presente como se este não só fosse eterno, mas sobretudo como se
existisse por si mesmo, isto é, como se não fosse efeito das ações humanas e
como se não tivesse causas passadas e efeitos futuros, isto é, reduz o presente
ao instante imediato sem memória e sem porvir; por outro lado, procura mostrar
que qualquer idéia positiva do bem, da felicidade e da liberdade, da justiça e
da emancipação humana é um mal. Em outras palavras, considera que as idéias
modernas de racionalidade, sentido da história, abertura temporal do possível
pela ação humana, objetividade, subjetividade teriam sido responsáveis por todo
o mal do nosso presente, cabendo tratá-las como mistificações totalitárias. A
ética como ideologia é perversa porque toma o presente como fatalidade e anula
a marca essencial do sujeito ético e da ação ética, isto é, a liberdade (CHAUÍ,
1998).
Cabe frisar aqui, para o objeto da proposta
de reflexão trazido por este artigo, o pensamento da autora citado acima no que
diz respeito à constatação de que a ética como ideologia “reduz o presente ao
instante imediato sem memória e sem porvir”. Este fato contribui, sem dúvida,
para a percepção, quase que permanente – pois atravessa gerações –, de que
estaríamos vivendo uma crise ética, visto que esvazia do ser humano sua
condição de agente histórico, que reflete sobre as causas da realidade atual e a
modifica por meio de uma ação intersubjetiva consciente e livre.
3
ÉTICA NA MODERNIDADE
E NA PÓS-MODERNIDADE SEGUNDO ZYGMUNT BAUMAN
Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, nascido na
cidade de
Poznań,
em
19 de novembro de
1925, é um dos pensadores
mais profícuos da contemporaneidade, que qualificou a Modernidade com o célebre
conceito de liquidez. Bauman foi professor emérito das Universidades de
Varsóvia e Leeds, tendo publicado mais de cinquenta trinta livros – com grande
aceitação tanto no meio acadêmico como do público em geral –, dos quais mais de
trinta foram traduzidos e publicados no Brasil.
Para o propósito deste artigo, esta seção
será dedicada a analisar a ética na Modernidade e na Pós-Modernidade, ou
Modernidade Líquida, à luz do pensamento de Bauman, de modo a permitir uma
compreensão do contexto da ética na contemporaneidade.
Na Idade Média, a Igreja Católica fazia o
papel de prescrição de regras morais, definindo o que é certo e errado,
perdoando os pecados dos indivíduos, determinando quem teria lugar assegurado
no céu ou no inferno. A influência da Igreja era de tal modo que afrontar as
verdades que dela emanavam era como afrontar Deus; o domínio dessa Instituição
se dava tanto no âmbito público como na vida privada de cada pessoa, e aqueles
que ousaram discordar de seus postulados sofreram torturas ou pagaram com a
própria vida ou sua liberdade.
Com a Modernidade, o projeto Iluminista era
o de libertar os homens dos dogmas, das verdades impostas e absolutas,
dando-lhes autonomia. Porém, a ética moderna, segundo Bauman, converteu-se em
uma multidão de leis e prescrições, retirando do indivíduo justamente sua
autonomia, que era a máxima do Iluminismo – o Esclarecimento, que visava emancipar o homem e libertá-lo de uma
tutela alheia.
O projeto moderno partia de uma crença na
possibilidade da criação de um código ético que tivesse um caráter de
universalidade, que não permitisse nenhum tipo de ambivalência nos juízos
morais e conduzisse a humanidade, forçosamente, a uma vida sem pecadores e sem
pecado (ou culpabilidade, usando um termo moderno), porém também sem escolhas,
visto que se trataria de uma sociedade totalmente guiada pela heteronomia das
leis. Desse modo, a ética moderna, segundo Bauman, tornou-se sinônimo de leis.
Poderíamos dizer, em última análise, como
afirma Bauman, que o projeto moderno estabelecia como princípio um mundo
desembaraçado da ambivalência moral, e que, sento esta o traço natural da
condição moral, estabelecia ao mesmo tempo a ruptura das escolhas humanas com a
dimensão moral (SILVA, 2013, p. 95): “na prática, significava a substituição da
lei ética à escolha moral autônoma” (BAUMAN APUD SILVA, 2013, p. 95).
Porém, o projeto moderno fracassou, uma vez
que se pautava na crença de algo inexequível, que seria a possibilidade de um
código ético não ambivalente e não aporético, capaz de eliminar da vida em
sociedade tudo aquilo que fosse moralmente inadequado, e que desse conta de
toda a complexidade e subjetividade da vida. Nas palavras de Bauman: “Talvez
ainda não se tenha encontrado esse código. Mas com certeza ele está à espera na
virada da esquina. Ou na virada da próxima” (BAUMAN, 1997, p. 15).
O esforço desmedido da Modernidade em
conquistar um código que pudesse resolver tais diferenças e ambiguidades
resultou em uma ilusão. Por outro lado, o indivíduo viu-se obrigado a cumprir
uma moralidade determinada pelo Estado na sua legislação. O que seria
emancipação e autonomia das práticas locais configurou-se determinantemente na
heteronomia legalista da nação-estado: a moralidade passa a ser determinada nos
códigos e esta, paulatinamente, torna-se a única “obrigação moral” dos
indivíduos (SILVA, 2013, p. 61). “O modo moderno de conceber o ser humano é uma
tentativa de “abarcar o inabarcável”, substituir diversidade por uniformidade,
e ambivalência por ordem coerente e transparente – e, ao tentar fazê-lo, produz
constantemente mais divisões, diversidade e ambivalência do que as de que se
conseguiu livrar.” (BAUMAN, 2006, p. 10, APUD SILVA, 2013, p. 64).
Assim, a ética moderna, segundo Bauman, é a
ética dos códigos, da legalidade, e apesar de a razão e a proclamação da
autonomia dos agentes éticos tenham sido traços característicos do citado
período, na prática não foi o que ocorreu. Diante da impossibilidade dos
Estados-Nações de estabelecerem regras morais universais – que, na Modernidade,
podem ser entendidos como ética –, ou da própria incapacidade em lidar com a
pluralidade e diversidade próprias de nosso tempo, cederam-se espaços para que
outras vozes fossem ouvidas.
Em conseqüência dessa situação, surgem, na
Pós-Modernidade, as comunidades dos “eus-situados”, que lutam para esvaziar de
seus membros os conteúdos éticos heterônomos impostos pelo Estado. Porém, em
vez de favorecerem à iniciativa autônoma do indivíduo, impõem mais uma forma de
heteronomia moral, do tipo comunal, assentada sobre o direito das minorias.
Nesse contexto, surge o relativismo moral, tão mencionado em nosso tempo. Nas
palavras de Paulo Fernando da Silva (2013, p. 81):
As comunidades postuladas não têm a
segurança jurídica do Estado, na verdade se apóiam na incapacidade desse mesmo
Estado em lidar com as diferenças e se aproveitam de concessões para
fundamentar e exercer seu campo de dominação. Esta dominação, que sempre exclui
da agenda a autonomia e iniciativa do indivíduo, gera uma multiplicidade de posições
e comunidades que, na visão de Bauman, seria de fato o “relativismo da moral”
tão proclamado ultimamente. Cada comunidade postula sua tese e afirma que esta
é a melhor dentre as demais: o relativismo moral que sofre o indivíduo
atualmente diz respeito justamente a esta multiplicidade de vozes, uma vez que
cada uma pretende ser a “voz da moral”.
Assim, resta claro que tanto a tentativa
dos universalistas quanto a dos comunitaristas de se consolidar uma moralidade
autônoma não obtiveram sucesso, e, de forma curiosa, acabaram por gerar maior
afirmação da heteronomia moral, contrariamente ao projeto de Esclarecimento, tornando-se a moralidade
sinônimo de normas e códigos (SILVA, 2013). Pensando de forma diferente dessas
propostas, Bauman afirma que “só as normas podem ser universais. Pode-se
legislar deveres universais ditados como normas, mas responsabilidade moral só
existe na interpelação do indivíduo e no ser portada individualmente” (BAUMAN
1997, p. 66).
Na Pós-Modernidade ou Modernidade Líquida,
houve um desencanto com os ideais Iluministas, principalmente pelas consequências
desastrosas da Racionalidade Instrumental, que culminaram com as duas grandes
guerras, sistemas totalitários, genocídios, bomba atômica. Segundo Bauman, o
Holocausto foi uma conseqüência de diversos fatores, mas, principalmente, da
mentalidade ou “projeto” moderno.
Com o fracasso do projeto da Modernidade,
chegou-se a um vazio, não que o homem tenha ficado desprovido de valores ou de
moralidade, mas, agora, perderam-se as referências sólidas, que, na Idade
Média, emanavam da Igreja, e na Modernidade, das leis dos Estados-Nações.
Na contemporaneidade, é possível afirmar
que não há mais uma instituição que construa, de forma universal, uma ética
prescrita para os indivíduos. “O vazio a que muitos pensadores atuais se
referem, como Gilles Lipovetsky (1989), diz respeito a esse recuo do Estado em
relação a essa prática de tutela moral dos indivíduos” (SILVA, 2013, p. 78). “O
Estado, diz Bauman, acabou por negar suas obrigações e, propositadamente ou
não, abriu espaço para novos postulados” (SILVA, 2013, p. 79):
Os
Estados cada vez mais reconhecem os direitos de categorias menores do que a
nação (étnicas, territoriais, religiosas, sexuais, baseadas em política
sexual), de especificidade moral e autodeterminação – ou, antes, permite
acontecer essa autodeterminação mais por negligência que de propósito (BAUMAN,
1997, p. 55).
Os ‘direitos humanos’, que, de um lado,
são efeito da abdicação do Estado de certas prerrogativas de seus poderes legislativos
e de sua passada ambição difundida e meticulosa de regulação da vida individual
– do Estado que se reconcilia com a permanência da diversidade do seu seio –
torna-se, de outro lado – grito de guerra e arma de chantagem nas mãos de
indivíduos aspirantes a ‘líderes da comunidade’ que desejam apossar-se dos
poderes que o Estado deixa cair (BAUMAN, 1997, p. 56).
Para Bauman, o momento atual, que
corresponde à Pós-Modernidade ou Modernidade Líquida, não seria, exatamente, de
crise de valores, conforme muitas vezes se tem propagado, mas de uma crise de
“verdades absolutas” legadas pela Modernidade:
Destarte, o momento atual pode ser
entendido como uma crise das “verdades absolutas” legadas da Modernidade. Não
se trata, como comentou Bauman alhures, de uma crise dos valores humanos ou algo que venha a obstruir seu
desenvolvimento. Trata-se, antes de tudo, de uma crise daqueles fundamentos
baseados na limpeza, beleza e ordem já defendidos pelos modernos e que perderam
sua hegemonia, a ponto de necessitarem de uma revisão (SILVA, 2013, p. 84).
Segundo Bauman, a
liberdade individual é o valor atual que tem maior preponderância na sociedade
atual e é por meio deste que todos os outros valores são avaliados:
[hoje] a liberdade individual reina
soberana: é o valor pelo qual todos os outros valores vieram a ser avaliados e
a referência pela qual a sabedoria acerca de todas as normas e resoluções
supra-individuais devem ser medidas. Isso não significa, porém, que os ideais
de beleza, pureza e ordem que conduziram os homens e mulheres em sua viagem de
descoberta moderna tenham sido abandonados, ou tenham perdido um tanto do
brilho original. Agora, todavia, eles devem ser perseguidos – e realizados –
através da espontaneidade do desejo e do esforço individuais. (BAUMAN 1998, p.
09)
Enquanto o pensamento moderno entendia a
“ambivalência de juízos morais como um estado mórbido de coisas que se deseja
corrigir” (BAUMAN, 1997, p. 29, APUD SILVA, 2013, p. 87), visto que buscava na
“ética” estabelecer um código moral que pretendia ser o código moral, o momento
atual da humanidade, de Modernidade Líquida, a ambivalência deve ser vista de
modo positivo, uma oportunidade de revisão dos valores, um momento em que há
boas possibilidades de o sujeito usar de sua autonomia, para agir, de fato, de
forma ética, no sentido mais próprio do termo. Conforme esclarece Silva (2013,
p. 85):
Segundo Bauman, “a reavaliação de todos os
valores é um momento feliz, estimulante, mas os valores reavaliados não
garantem necessariamente um estado de satisfação” (1998, p. 10). Estamos hoje,
novamente, num período de revisão. E, neste sentido, a liberdade, como diz
Bauman, é resultado de uma relação social (1998, p. 253). Contudo, citando
Thomas Mann, diz Bauman: “a conciliação da liberdade com a igualdade jamais se
completa e se consuma definitivamente” (1998, p. 254) e, na política
pós-moderna, “a liberdade individual é o valor supremo e o padrão pelo qual
todos os méritos e vícios da sociedade como um todo são medidos” (1998, p.
254).
Assim, diante da impossibilidade do
estabelecimento de um código moral universal, o momento atual em que se vive,
de Pós-Modernidade, deve ser visto como uma grande oportunidade de revisão de
valores e de exercício da autonomia moral pelo indivíduo.
Embora não se tenham mais referenciais sólidos,
há uma multiplicidade de referenciais que favorecem ao que foi denominado por
Bauman por “ética líquida”, que teria por características o pluralismo do
poder, a liberdade de escolha e a autoconstrução social pelos próprios sujeitos
(SILVA, 2013).
4 ALGUNS ASPECTOS DO
CAPITALISMO NA ÉTICA CONTEMPORÂNEA
Clóvis de Barros Filho e Mário Sérgio
Cortella chamam a atenção para um aspecto importante em nossa vida
contemporânea, mais especificamente no que ocorre nas empresas, que é a ideia
da “ilusão do foco no resultado”.
Quando visitamos empresas, geralmente nos
deparamos com o banner de valores. E,
em alguns, podemos ler: HONESTIDADE, CRIATIVIDADE, TRANSPARÊNCIA; em seguida, o
invariável: FOCO NO RESULTADO. Um fato interessante é que a palavra foco inevitavelmente vem acompanhada da
palavra resultado, como se fosse uma
obviedade. Não sei também se você, Cortella, já refletiu sobre a bobagem que é
fazer uma lista em que um dos itens tem a palavra foco. Porque nesse caso ficam anulados os outros itens. Se o
oftalmologista diz: “Foque a terceira letra”, todas as outras letras perdem o
foco (BARROS FILHO, 2016, p. 18).
Os autores explicam como essas questões
simples do cotidiano de nossas vidas, principalmente no meio empresarial,
conduzem o trabalhador a uma falta de compromisso com valores éticos, pelo
menos com aqueles estipulados pela lista disponibilizada pelas empresas, pois
se, por exemplo, há um conflito entre honestidade e resultado, como o foco é no
resultado, escolhe-se o resultado, e o trabalhador estaria, assim, seguindo os
“valores éticos” da empresa. Assim ocorre, também, com qualquer outro conflito
ético: transparência versus resultado, criatividade versus resultado, etc. O
resultado, que, no modo de produção capitalista, pode ser resumido no lucro,
acaba por ser, invariavelmente, o valor mais relevante.
Cortella menciona, ainda, a questão de um
lema muito comum no meio empresarial e que acabou por se tornar um tipo de
postura impregnada na vida social como um todo, que é a ideia do “fazemos
qualquer negócio”. Qual a lógica que está por trás desse pensamento? A de que
para se atingir o resultado, faz-se
qualquer coisa, isto é, os meios que se utilizam para atingir determinados fins
não importam, pois, no fim das contas, o que interessa é o resultado, ainda que
se menoscabem os valores éticos, ou, pelo menos, alguns deles (CORTELLA, 2016).
Apesar de os autores frisarem que sempre há
a possibilidade de escolha do sujeito ético, este tipo de comportamento é algo
que se verifica não somente no meio empresarial, mas também na escola, na
universidade, ou em qualquer outro campo da vida dos indivíduos, demonstrando
que, muitas vezes, o estilo contemporâneo de vida busca o sucesso a qualquer
custo, a realização pessoal a qualquer preço, ainda que a pessoa não tenha
muito do que se orgulhar dos meios que se utilizou para chegar aonde se
encontra no seu meio social.
Contextualizando essa questão cotidiana com
o modo de produção capitalista, ocorre que, nesse sistema, há o fenômeno
descrito por Karl Marx como alienação: o produto do trabalho é completamente
estranho ao trabalhador, e o trabalhador se torna uma mercadoria como outra
qualquer. Como explica Netto, 1981, p. 57, apud Ávila, 2016, p.3:
No trabalho alienado, o trabalhador não se
realiza e não se reconhece no seu próprio produto; inversamente o que ocorre é
que a realização do trabalho, a produção, implica a sua perdição, a sua
despossessão: o produto do trabalho se lhe aparece como algo alheio, autônomo.
Esse processo de alienação não ocorre somente
na relação do ser humano com o seu trabalho. Considerando que é o trabalho que
coloca todas as suas capacidades em prática, tais capacidades lhe são negadas
por essa alienação e o ser social se torna um alienado em todas as esferas da
vida. Em suma, a vida se torna alienada (ÁVILA, 2016, p. 4).
Desse modo, os trabalhadores de uma empresa
estão alienados do produto final do seu trabalho e, como eles se tornam meras
peças de uma grande engrenagem, não se sentem, muitas vezes, responsáveis pelas
consequências morais dos resultados de seu trabalho. Essa situação se reproduz
em diversas esferas da vida. A título de exemplificação, podemos citar o
trabalhador de uma empresa cuja mercadoria seja um produto fumífero que causa
câncer de pulmão. Alargando este exemplo, podem ser citados, também, os
trabalhadores que idealizaram e fabricaram uma bomba atômica. Tais
trabalhadores não se sentem responsáveis diretos pelos danos causados a outrem,
pois eles se encontram alienados em relação ao produto final do seu trabalho,
como se não fizessem parte daquilo.
Esse processo de alienação promove a
desumanização do ser humano, a coisificação do ser humano, uma vez que o impede
de exercer seu papel social de maneira consciente e livre. Nas palavras de
Lívia Neves Ávila, 2016, p. 4:
O homem, para colocar todas suas
capacidades em prática, ou objetivar sua práxis, precisa responder às
necessidades de forma consciente e livre. Na maneira em que a atividade humana
é alienada seu caráter social e consciente é negado. Acontece que todo o
desenvolvimento adquirido pelo homem no exercício do trabalho, incluindo seus
sentidos, são perdidos, pois o homem é desumanizado na alienação e seu trabalho
se torna apenas utensílio para sobrevivência.
Com essa forma de alienação, desumanização,
em que tudo se transforma em objeto, inclusive o ser humano, isto esvazia dele
sua condição de agente ético, que, então, passa a ser guiado somente pela
heteronomia das leis e códigos de ética, os quais, conforme abordado no tópico
anterior, passaram, gradativamente, a tornarem-se a única obrigação moral dos
indivíduos.
Além desse quadro, considerando que, na
sociedade contemporânea, o indivíduo, esvaziado da sua condição de sujeito,
alienado de si mesmo, vivendo na condição de coisa, é regido por uma “dispersão
de éticas” – “ética política, ética médica, ética familiar, ética profissional,
ética da empresa, ética universitária” (CHAUÍ, 1998), conforme abordado no
tópico 2, ou seja, cada pessoa acaba por se eximir da condição de agente ético,
que realiza escolhas morais com liberdade e responsabilidade, para deixar a
ética nas mãos dos especialistas em ética.
Porém, essas éticas dispersas e locais,
pois partem de uma visão fragmentada, que é o próprio reflexo da forma
contemporânea de alienação, entram em contradição, frequentemente, com outros
locais, uma vez que a sociedade capitalista é regida pelas contradições
internas (CHAUÍ, 1998).
Outro reflexo do modo capitalista de vida
na ética é a sociedade de consumo que a tudo tornou produto, que pode ser comprado,
adquirido. O lazer, o sucesso, a beleza e a própria felicidade parecem ser
confundidos com objetos de consumo. Isto cria uma obsessão pelo “ter”. Até
mesmo as receitas de sucesso e de felicidade parecem ter deixado de ser objeto
de reflexão para serem “produtos” a serem consumidos, adquiridos nas
prateleiras das livrarias, como ocorre com a proliferação de livros de
auto-ajuda.
Nesse ponto, cabe retomar o pensamento de
Marilena Chauí, conforme abordado no tópico 2, quando menciona que “a sociedade
da mídia e de consumo de bens efêmeros, perecíveis e descartáveis, engendra uma
subjetividade de tipo novo”. A sociedade capitalista incute nos indivíduos a
promessa de satisfação imediata dos desejos. A mídia, as propagandas do mercado
prometem sem cessar a juventude, beleza, prazer, sucesso, por meio dos
fetichizados, promessas que não podem se cumprir e, ao não se cumprirem, deixam
o rastro de frustação e niilismo (CHAUÍ, 1998).
Este aspecto ora abordado gera um ciclo
vicioso de busca incessante do indivíduo por “ter”, e, nesse caso, ter a
qualquer custo, com consequente vazio existencial e frustração. Ambos logo são
supridos por novas promessas do mercado de consumo, as quais, por sua vez,
geram novas necessidades de ter, que, de modo geral, não são necessidades reais
do ser humano, mas necessidades criadas pelo modo de vida capitalista, pela
necessidade de escoamento da produção.
Todos esses aspectos abordados a respeito
do modo de vida capitalista trazem relevantes implicações sobre a relação do
ser humano contemporâneo com a questão ética. Conforme esclarece Lívia Neves
Ávila, 2016, p. 2:
Esses fenômenos [a questão do fetichismo e
da alienação na sociedade capitalista contemporânea] causam a reificação
[processo que torna o ser humano objeto] da sociedade em geral, bem como da
consciência do ser social e de suas objetivações, inclusive a ética, fazendo-o
regredir diante de sua auto-realização pelo processo de trabalho. Esse
movimento da reificação nega o ser social como ser ético emancipado e o limita
na completude de seus direitos humanos.
Por fim, há que se destacar que, na
sociedade capitalista, aqueles que estão excluídos do mercado de trabalho
sequer são dotados da dignidade de ser humano. Ao excluído, ao não detentor dos
bens do mercado, nem lhes cabe a condição de agentes éticos, por ser-lhes
sobremaneira restringida a possibilidade ou condição de escolha. Diante da
falta de opções, resta-lhes aquilo que Cortella menciona como a escolha de Adão:
Porque num dos dois relatos do livro
Gênesis – são dois em sequência, e eles falam da mesma coisa, mas de maneiras
diferentes –, quando Deus cria o homem e em seguida a mulher, a escolha de Adão
é facilitada, já que existe uma única mulher. Esse é um tipo de escolha. De um
lado, facilitou para Adão, por outro, constrangeu-o. Que bom quando há algumas
escolhas porque elas oferecem certo conforto, certa consolação; já o fato de
não ter escolha se, de um lado, conforta, de outro, é extremamente heteronômico
e, portanto, pouco livre, pouco consciente, mais alienado (CORTELLA, 2016, p.
51).
Como a sociedade capitalista é excludente,
aos excluídos resta-lhes a condição de não escolha e, portanto, de pouca
possibilidade de exercício da liberdade e consciência ética. Isto se reflete na
violência urbana, nas situações-limite de pessoas que, não vendo alternativas,
roubam para se alimentar, para obter um remédio ou simplesmente para obter
aquilo que, obsessivamente, a mentalidade capitalista promete: o “ter”, como
meio de satisfação de todos os desejos e necessidades humanas.
Contraditoriamente, essa mesma sociedade
que elegeu a liberdade como valor máximo que guia os demais valores, conforme
mencionado no tópico anterior, é uma sociedade de liberdade limitada, uma vez
que a sociedade de consumo é guiada por uma liberdade atrelada às regras e
apelos do consumo:
Nossa sociedade de consumidores é uma
sociedade, para repetir Bauman, de cartão de crédito, uma sociedade do “hoje e
agora”, uma sociedade que deseja e não pode esperar. As normas reguladoras do
período moderno, o panóptico, não tem espaço na sociedade de consumidores. As
normas estão autorreferenciadas pelo consumo. O sujeito que tem liberdade de
escolher, e escolher, ou seja, consumir, supõe riqueza, não deve ser freado,
normatizado, enquadrado, sua condição de consumidor é seu passaporte livre de
acesso ao novo estilo de vida (SILVA, 2013, p. 110): “o consumo, sempre mais
variado e rico, aparece diante dos consumidores como um direito de desfrutar e
não como uma obrigação a cumprir. Os consumidores devem ser guiados por
interesses estéticos, não por normas éticas” (BAUMAN, 1999, p. 55, APUD SILVA,
2013, p. 110).
Destarte, “é a estética e não a ética o
elemento integrador na nova comunidade de consumidores, o que mantém seu curso
e, de quando em quando, a resgata de sua crise” (BAUMAN APUD SILVA, 2013, p. 110).
Nessa lógica do consumo, não se vive a experiência que agrega sabedoria ao
viver, mas tão somente a da satisfação dos desejos imediatos, ou seja daquilo
que pode ser no momento vivenciado. Desse modo, esta é a substituição da ética
pela estética enquanto referência para o agir moral do sujeito (SILVA, 2013).
CONCLUSÃO
Não é adequado afirmar que vivemos uma
crise ética, se partirmos do pressuposto de que ética é reflexão sobre a moral,
de que ética é a ação intersubjetiva consciente e livre dos indivíduos em
sociedade, e de que a ética não pode ser prescrita nem está disponível em algum
lugar, de modo que as pessoas possam, supostamente, perdê-la ou achá-la em
dados momentos de suas vidas.
Ocorre que, de fato, houve uma perda de
referenciais morais sólidos, de instituições que faziam o papel de
estabelecê-los para a sociedade: na Idade Média, os dogmas e regras ditadas
pela Igreja, e na Modernidade, os códigos e leis definidos pelas
Nações-Estados. Isto não significa que esses referenciais tenham deixado de
existir; apenas não existe mais uma voz hegemônica que possa ter a pretensão de
definir e prescrever os ditames morais universais para o conjunto de
indivíduos.
A sociedade contemporânea vive, mais do que
nunca, uma multiplicidade de vozes, que são ouvidas pelos meios de comunicação
de massa, pela rede mundial de computadores, pelas redes sociais. A pluralidade
e ambivalência de juízos morais é um fato que deve ser considerado natural
quando o ser humano exercita sua autonomia moral, e, por mais contraditório que
pareça, o momento em que vivemos traz maiores possibilidades de o ser humano
atender ao ideal do Esclarecimento,
qual seja, o de realizar escolhas morais sem a necessidade de uma tutela
alheia.
A pluralidade de referenciais observada em
nosso tempo acarreta, também, por outro lado, uma radicalização de
posicionamentos, fundamentalismos religiosos ou ideológicos, que fazem frente
ao individualismo competitivo e à busca do sucesso a qualquer preço, ao egoísmo
exacerbado e alienação à vida, decorrentes do modo de vida capitalista. Porém,
tais posicionamentos, em vez de possibilitarem a autonomia moral do indivíduo,
a reflexão ética e a construção ética intersubjetiva, apenas reproduzem
posturas adotadas em épocas recuadas, em que as pessoas se guiavam por visões
dogmáticas ou eram guiadas tão somente por uma heteronomia moral.
O relativismo moral – que se traduz em “o
que é certo ou errado para você pode não ser certo ou errado para mim” –, tão
propagado em nosso tempo e, muitas vezes, tão criticado, deve ser considerado
como um desafio de sempre, visto que a proposta de uma universalidade de juízos
morais da Modernidade era uma ilusão, um empreendimento inexequível.
Diante da ausência de referenciais sólidos,
do relativismo moral, os indivíduos vinculam-se a comunidades com as quais
estabelecem identidade, sejam religiosas, ideológicas, ativistas, por meio das
quais procuram estabelecer novas tentativas de fundar regras morais
pretensamente universais para o restante da sociedade, a partir dos fundamentos
que abraçaram como verdades absolutas, situação que contribui ainda mais para o
relativismo moral e constitui obstáculo à construção ética intersubjetiva, à
“realização coletiva do possível no tempo, isto é, a criação histórica” (CHAUÍ,
1998), uma vez que cada uma dessas comunidades pretende ser “a voz da moral”.
Apesar desse quadro, o momento deve ser
visto como positivo, uma vez que traz consigo a possibilidade de revisão dos
valores elegidos pela sociedade, que, embora múltiplos, se refletem na forma de
vida que os seres humanos estabelecem e nos resultados obtidos por essa forma
de vida.
Mais do que nunca, há uma urgência de
reflexão ética, revisão de valores e construção ética coletiva, visto que a
realidade das relações humanas do mundo atual é de destruição do planeta em
escala jamais vista, violência, exclusão social, corrupção, desigualdades
sociais e distribuição desigual dos bens da terra entre os povos e nações. Há,
sobretudo, uma desumanização do ser humano, que produz a indiferença e o vazio
existencial; ser humano que, muitas vezes, é visto ou vê-se como coisa, objeto,
mão-de-obra, estatística, e não como ser pensante e agente ético no seu tempo.
Há que se considerar, também, que os
esforços de gerações anteriores, de se criar códigos éticos, leis ou
prescrições pretensamente universais, embora não possam lograr ser, de fato,
universais, favoreceram que os indivíduos se tornassem mais sensíveis ao
pensamento sobre a ética e abominem atos que outrora eram vistos como naturais,
como a escravização de pessoas ou a aniquilação de outros povos ou culturas. As
constituições, os Direitos Humanos Universais, as leis, permitem que os seres
humanos construam coletivamente o sentido de ser, de existir, porém jamais irão
substituir a escolha moral autônoma de cada ser, individualmente.
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