sexta-feira, 14 de março de 2014

TV, Sexo e Censura

É curiosa a contradição e a hipocrisia que vemos na programação televisiva em nosso País.
Os palavrões são vetados por aquele som (“piii”) característico de censura, embora todo mundo saiba o que se está dizendo, mas apresentar programas que apresentam a degradação dos costumes, inversão de valores, realidade distorcida... pode, sem qualquer cerimônia.
Digamos que alguém esteja falando o palavrão que nos remete à imagem do filho de uma profissional do sexo. O que nos leva a crer que essa “ofensa” seja mais danosa do que a baixeza daquelas pessoas que se entregam a uma espécie de zoológico de pessoas, como os reality shows, para darem demonstrações do que há de pior no ser humano, como a dissimulação, a maledicência, a desonestidade, a promiscuidade, a futilidade, a ociosidade e o exibicionismo?
Não estou fazendo uma apologia ao palavrão. Ocorre que geralmente ele se refere a alguma coisa que tem a ver com sexo, mas com uma visão distorcida, pejorativa, do sexo, incorporada historicamente à nossa cultura, às nossas mentes. Não há nada de errado com o sexo; o ser humano é quem o distorce, como a tudo distorce, e essa visão distorcida do sexo está entranhada no palavrão. Então o problema não está no palavrão, mas na distorção do sexo, que é o que mais se vê na TV e no cinema.
Algumas cenas de sexo ou de nudez são censuradas. Lembro-me de um filme que tinha uma cena de amor entre um casal, muito bonita, que, por sinal, era num momento de ato sexual. Seria ótimo se os jovens pudessem ver o sexo dessa forma assim tão bela. Essa cena seria cortada numa exibição na TV à tarde ou no horário nobre. Até aí, tudo bem. Agora, mostrar a vilã da novela das nove seduzindo o parceiro e depois tentando assassiná-lo com uma sucessão de facadas pode, já que "não tem" cena de sexo.
Enquanto isso, no Carnaval, mulheres seminuas (ou nuas mesmo, como é o caso da "Globeleza") são mostradas como numa vitrine. E a mídia incentiva essa imagem de Brasil, que é vista no exterior como convite ao turismo sexual. Depois, nós ficamos ofendidos quando a FIFA faz um desenho promocional da Copa no Brasil mostrando os corpos femininos seminus à mostra.

Os programas de TV são assim porque nós lhes damos audiência, e nós damos audiência porque nosso nível cultural não é dos melhores. A TV está sujeita às regras do mercado. Os programas são os produtos e o “mercado” somos nós. E esses produtos somente serão melhores quando nós (o “mercado”) assim o quisermos.

Autor: Alexandre Paredes


Cena da novela "Amor à vida" (Rede Globo, 2013)
Resolvi censurar aqui a cena das facadas.

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