sábado, 1 de março de 2014

A Corrupção e o Povo nas Ruas

Artigo publicado em 30/06/2013, momento em que ocorriam diversas manifestações populares no Brasil, na época da Copa das Confederações.

A manifestação popular que toma conta do nosso país revela que o povo não suporta mais conviver com a corrupção, além de demonstrar uma grande desilusão com a política e com os políticos, resultado de décadas – ou seriam séculos? – de descaso dos governantes com os direitos fundamentais do cidadão: saúde, educação,transporte, segurança.

Mas, se essas manifestações têm de sobra paixão, carecem um pouco de foco, razão e reflexão. Toda paixão é avassaladora, move mundos, mas tem prazo de validade e é cega.

Afinal, quais são as propostas? Aonde queremos chegar? Todos queremos um Brasil melhor – ou a grande maioria –, sem dúvida, mas sem propostas concretas, objetivas, corremos o risco de voltar das ruas e encontrarmos nossa casa mais bagunçada do que antes.

Corremos o risco de afugentar investidores, aumentar a desconfiança e a insegurança da comunidade internacional em relação ao nosso país, afugentar turistas, sem contar os prejuízos econômicos decorrentes das paralisações, dias ou horas de trabalho comprometidos, atividade econômica desaquecida, mobilização do efetivo de policiais, aumento de atendimentos pelo SAMU e hospitais, bloqueios de estradas, depredação do patrimônio público e o privado, que serão pagos... por nós, é claro. 

Reivindica-se tudo, protesta-se contra tudo: contra a corrupção, a falta de qualidade da educação e da saúde, o PEC 37, os gastos com a Copa do Mundo, contra a FIFA, o Feliciano, a “cura gay”, os R$ 0,20 e mais uma infinidade de temas abordados nos cartazes das passeatas.

Todos os protestos são legítimos, mas somente aqueles que têm um foco mais claro ou trazem propostas objetivas, concretas, têm maior chance de gerar mudanças efetivas. Não há governante que resista e não ceda diante de uma mobilização como esta, como ocorreu com a questão dos R$ 0,20 da tarifa de ônibus. Nesse caso, só caberia lembrar que alguém vai pagar essa conta, e, com certeza, seremos nós, por meio de impostos ou outros mecanismos que, de algum modo, compensarão os prejuízos dos empresários.

Mas como se acaba com a corrupção, tema central da maioria dos protestos? Não é de hoje que o clamor popular exige o fim desse câncer que mina todas as instituições do País. Basta nos lembrarmos da “vassoura”, de Jânio Quadros, e da “caça aos corruptos e marajás”, de Fernando Collor. O tempo passa, novos discursos são reinventados, mudam-se os atores, mas o problema é o mesmo; persiste, porque não é tão simples como se pensa. Está enraizado na cultura da nação e não será vencido por meio de um decreto.

Isto nos faz lembrar um doente que se queixa de dores ao médico e exige-lhe um remédio que lhe dê alívio imediato, um analgésico qualquer que lhe tire aquela dor, sem saber que sofre de uma doença grave, um câncer ou uma síndrome complexa que se apossa de cada célula do seu organismo.

Corrupção é um mal invisível que permeia toda a sociedade: tanto os que ocupam cargos públicos relevantes quanto os cidadãos mais simples; tanto o poder executivo, quanto o legislativo e o judiciário; tanto no âmbito federal, quanto estadual ou municipal; tanto na política quanto nas instituições públicas menores, como escolas, hospitais, repartições.

Os políticos, tão visados nesses grandes manifestos, são pessoas do povo, eleitas pelo povo. Muitas vezes, aquela mesma pessoa que reclama da corrupção é a que troca seu voto por um benefício, um cargo, um lote. Não é uma forma de corrupção?

Ainda somos um povo que traz muito forte a cultura do "jeitinho brasileiro". Condenamos o outro que atropela o cidadão por estar embriagado, mas não aceitamos o rigor da polícia no cumprimento da Lei após a saída do bar; condenamos os sonegadores de impostos, mas damos um jeitinho para reduzir nosso imposto de renda; queremos serviços públicos de qualidade, mas não queremos pagar impostos.

Não raro, muitas daquelas pessoas que vão às ruas reclamarem seus direitos, exigirem melhores condutas dos seus representantes e governantes, são as mesmas que se omitem na hora de votar, ou votam sem consciência, ou não procuram saber o que fazem os políticos em quem votou, numa outra forma de omissão; alegam estar descrentes da política, dos políticos, dos partidos.

Mas não adianta ficar descrente da política e repudiar a presença de partidos nas mobilizações. Nossa vida continuará dependendo da política. A multiplicidade de propostas, reinvindicações e reclames exige um diálogo organizado entre a sociedade e seus representantes. Caso contrário, continuaremos com nossos cartazes... falando para os políticos, falando para nós mesmos... numa Torre de Babel sem fim.

Autor: Alexandre Paredes



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